Lado A
Sgt. Pepper é iniciado com a faixa-título, que começa com dez segundos de sons combinados de uma orquestra a ensaiar e de uma plateia à espera do concerto, introduzindo a ilusão do álbum como uma performance ao vivo. O musicólogo Kenneth Womack descreve a letra da faixa "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" como "um momento revolucionário na vida criativa dos Beatles", que preenche a lacuna, às vezes descrita como quarta parede, entre a audiência e o artista. Ele argumenta que, paradoxalmente, a letra "exemplifica a retórica descompromissada dos gracejos em shows de rock", enquanto "zomba da própria noção da capacidade de álbuns pop de engendrar autêntica ligação entre artista e público". Ele credita o uso, na gravação, de grupos de instrumentos de sopro e da distorção em guitarras elétricas como exemplo primitivo de rock fusion. MacDonald concorda, descrevendo a faixa como uma abertura em vez de propriamente uma das canções, além de uma "astuta combinação entre uma variedade de tipos orquestrais da era eduardiana" e com hard rock contemporâneo. O musicólogo Michael Hannan descreve a mixagem stereo não ortodoxa da faixa como "típica do álbum", com o vocal principal no microfone direito durante os versos, mas no esquerdo durante o refrão. "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" foi a primeira faixa dos Beatles a ser beneficiada pela técnica de produção conhecida como "injeção direta", que, de acordo com Womack, "proporcionou ao baixo de McCartney texturas mais ricas e claridade tonal". O arranjo da canção utiliza progressão harmônica em modo lídio orientada ao rock and roll durante a introdução e nos versos construídos em acordes de sétima paralelos, os quais Everett descreve como "a força da música". A ponte de cinco compassos é preenchida por um quarteto de trompas eduardiano cujo arranjo Martin concebeu a partir da melodia vocal de Paul. A faixa muda para escala pentatônica no refrão, onde sua progressão de blues rock é aumentada pelo uso de power chords de guitarras elétricas, tocadas em quintas paralelas.
McCartney atua como mestre de cerimônias no trecho próximo ao final da faixa, introduzindo Starr como um alter ego chamado Billy Shears. A canção então segue ininterruptamente para "With a Little Help from My Friends" em meio a um momento de regozijo da plateia, gravado por Martin durante um show dos Beatles no Hollywood Bowl. Womack descreve os vocais principais de barítono de Starr como "encantadoramente sinceros", atribuindo a eles a transmissão de um elemento de "seriedade em nítido contraste com o irônica distância da faixa-título. "John e Paul, nos vocais de apoio, fazem perguntas a Starr sobre o significado da amizade e do amor verdadeiro. Na opinião de MacDonald, a letra é "ao mesmo tempo comum e pessoal... tocantemente entregue por Starr [e] significativa de um gesto de inclusão; todos poderiam participar."Womack concorda, identificando "necessidade de comunhão", como o "dogma ético central" da canção, um tema que ele atribui ao LP como um todo. Everett observa o uso de uma cadência plagal dupla que teria se tornado comum na música pop após o lançamento de Sgt. Pepper. Ele caracteriza o arranjo como inteligente, particularmente a sua inversão da relação de perguntas e respostas na estrofe final, em que os backing vocals fazem perguntas importantes e Starr fornece respostas inequívocas. A canção termina com uma alta nota vocal que McCartney, Harrison e Lennon incentivaram Starr a atingir, apesar de sua falta de confiança como cantor.
Apesar da suspeita generalizada de que "Lucy in the Sky with Diamonds" continha uma referência oculta ao LSD, Lennon insistiu que foi derivada de um desenho pastel do seu filho de quatro anos, Julian. Um capítulo de Through the Looking-Glass, novela de 1871 de Lewis Carroll, teria inspirado a atmosfera da música. McCartney confirmou a existência do desenho e a influência de Carroll na faixa, notando que, embora a aparente referência às drogas no título não tivesse sido intencional, a letra foi propositalmente escrita para uma música psicodélica. A primeira estrofe começa com o que Womack caracteriza como "um convite na forma de um imperativo", em "Picture yourself in a boat on a river", e continua com descrições imaginárias de cenários, incluindo "tangerine trees" ,"rocking horse people" e "newspaper taxis", por exemplo. Martin considera a melodia da introdução como "crucial para o vigor da música". Na sua opinião, a estrofe pode soar monótona se não pela justaposição "dessa quase única nota vocal contra as inspiradas notas introdutórias", as quais ele descreve como "irresistivelmente mesméticas". Na visão de Womack, com a união entre a letra de John e a introdução do órgão Lowrey de Paul, "os Beatles alcançaram a mais vívida instância do timbre musical". O musicólogo Tim Riley identifica a música como o momento "no álbum, [onde] o mundo material é completamente nublado na mítica do texto e da atmosfera musical."De acordo com MacDonald, "o caráter explícito da letra recria a experiência psicodélica". Lennon explicou: "Era a Alice no barco. Ela está comprando um ovo e ele se transforma no Humpty Dumpty. A mulher que serve na loja se transforma em ovelha e no minuto seguinte eles estão... em um barco a remo e eu estava visualizando isso. Havia também a imagem de uma mulher que viria um dia me salvar, uma 'menina com olhos caleidoscópicos', que viria do céu. Ela acabou por ser Yoko... então talvez deveria se chamar 'Yoko in the Sky with Diamonds'."MacDonald acredita que "Getting Better" contém "a performance mais efervescente" em Sgt. Pepper. Womack credita a "condução sonora de rock" da faixa como o fator distintivo em relação ao material abertamente psicodélico do disco, e sua letra inspiraria o ouvinte "a usurpar o passado vivendo bem e fazendo florescer o presente". Ele cita a música como um exemplo da força da escrita colaborativa de Lennon e McCartney, particularmente a adição, por parte de John, do verso: "couldn't get much worse", que serve como uma tréplica sarcástica ao refrão de Paul: "It's getting better all the time". McCartney descreve a letra de Lennon como "sarcástica" e "contra o espírito da canção", o que ele conclui ser o "típico John". MacDonald caracteriza o início da faixa como "alegremente inortodoxo", com duas guitarras em staccato a tocar o dominante contra o subdominante de uma corda fá maior com nona, com a tônica dó a resolver quando a estrofe se inicia. O dominante, que atua como um pedal, é reforçado pelo uso de oitavas tocadas no contrabaixo e arrancadas nas cordas do piano. Womack interpreta a letra de "Fixing a Hole" como "a busca do falante por identidade entre o público", em particular, "buscas por consciência e conexão" que diferenciam da sociedade como um todo. MacDonald caracteriza-a como uma "faixa distraída e introvertida", durante a qual McCartney esquece sua "usualmente suave projeção" em favor de "algo mais preocupado". Womack acrescenta que a guitarra elétrica de Harrison acompanha bem a faixa, capturando seu tom e transmitindo desapego. Paul buscou inspiração para a canção em parte do seu trabalho de restauração de uma fazenda escocesa. Womack nota uma adaptação da letra de "We're Gonna Move", de Elvis Presley, em "a hole in the roof where the rain leaks in". A música denota o desejo de McCartney de deixar sua mente vaguear livremente e expressar sua criatividade sem o fardo de inseguranças auto-conscientes.
Na perspectiva de Everett, a letra de "She's Leaving Home" fala sobre o problema da alienação "entre pessoas discordantes", particularmente entre grupos afetados por separações entre gerações. A "narração descritiva" de McCartney, que detalha os apuros de uma "garota solitária" que escapa do controle de seus "egoístas porém bem intencionados pais", foi inspirada por uma reportagem do Daily Mail sobre as fugas de adolescentes de suas casas. É a primeira faixa de Sgt. Pepper que evita o uso de guitarras e baterias, caracterizada por um noneto de cordas e harpa, estimulando comparações com "Yesterday" e "Eleanor Rigby", as quais usam um quarteto de cordas e um octeto, respectivamente. Enquanto a resenha de Richard Goldstein em 1967 para o The New York Times caracteriza a canção como pouco inspirada, MacDonald identifica a faixa como uma das duas melhores do disco. Moore nota o julgamento do resenhista como feito a partir de "critérios de oposição", considerando que Goldstein opinou durante o surgimento dos movimentos de contracultura da década de 1960, enquanto MacDonald, a escrever em 1995, é "intensamente consciente dos revezes [do movimento".
Lennon adaptou a letra para "Being for the Benefit of Mr. Kite!" a partir de um póster de 1843 de um circo comprado em Kent no dia da filmagem do videoclipe para "Strawberry Fields Forever". Womack elogia a mistura bem sucedida das características visuais do impresso com a música: "O poder interpretativo da aplicação de mistura de mídias tem sua importância advinda da produção musical com a qual o grupo imbui o texto original do poster. "MacDonald nota no pedido de John por uma "produção de campo na qual se pudesse sentir o cheiro da serragem" uma atmosfera que Martin e Emerick tentaram criar com uma colagem sonora que compreendeu gravações aleatoriamente montadas de harmônios, harmônicas e calíopes. MacDonald descreve a música como "expressão expontânea do hedonismo brincalhão do autor". Everett pensa que o uso de imaginários eduardianos na faixa liga-a tematicamente ao número de abertura do álbum.
Nenhum comentário:
Postar um comentário